Tradução: William Shakespeare – Soneto 146

Pobre alma, centro desta gleba pecadora,
Por que alimentas as revéis forças que te adornam?
Por que padeces dentro e de fome sofres
Tingindo-te fora em caras e vivas cores?

Por que tantas custas se é tão breve o contrato
Da mansão velha que tu arrendas e te habitas?
Se haverão os vermes, herdeiros de teu gasto,
De consumí-la? Não é o teu corpo que finda?

Ó alma, que das perdas de teu servo tu vivas e
Deixa que a dor agrave, que aumente a fartura;
Compra bens divinos vendendo horas impuras;

Nutra-te dentro, e assim por fora não mais rica:
Te alimenta da morte que traga os mortais
Que então, morta a morte, tu não mais morrerás.

William Shakespeare, Sonnet 146

L.

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Felicidade

Meu amigo,
Aristóteles já dizia
Que a suma felicidade consistia
Na mais pura contemplação.

E a quem preza a inação
Da via contemplativa
Mudar dói,
Mudar turva a vista
– A mudar, resista,
Pois mudança é traçar
No perfeito, imperfeição.

A não ser que o perfeito imperfeito fosse.
A não ser que se prezasse errado.
Pois, que se diga nesse caso
– Benvinda, mudança!
– Benvinda, dor, benvinda!
A mudar, persista,
Que mudança também é traçar
O imperfeito à perfeição.

Mas disso já não mais se sabe.
E não sabendo – suma humildade –
Contemplemos, reservados,
O mudar-nos dias e dores,
Em mais pura contemplação –

Felicidade.

L.

Tradução: Wallace Stevens – Chá no Palácio de Hoon

Não menos porque em púrpura atravesso
O dia ocidental pelo que chamastes
‘O ar mais solitário’, não menos eu era eu mesmo.

Que era o unguento espalhado em minha barba?
Que eram os hinos entoados em meus ouvidos?
Que era o mar cuja corrente varria-me lá?

De minha própria mente chovia o unguento dourado.
E meus próprios ouvidos compunham os hinos que ouviam.
Eu mesmo era a bússola desse mar:

Eu era o mundo em que andava, e o que via
Sentia ou ouvia, provinham senão de mim.
E lá me encontrei assim, mais estranho e verdadeiro.

Wallace Stevens, em Harmonium, 1923

L.

Tradução: Wallace Stevens – A Realidade é uma Atividade da Mais Augusta Imaginação

Última sexta, sob o clarão da última sexta-feira à noite,
Dirigíamos de Cornwall a Hartford, tarde.

Não era um sopro de noite em uma vidraria em Viena
Ou Veneza, inerte, colhendo tempo e poeira.

Havia um aperto de força de um moinho a girar,
Baixo à fronte da estrela mais hespéria,

O vigor da glória, um ardor nas veias,
Ao se erguerem e moverem as coisas, dissolvidas.

Na distância, mudança, no nada ou mais,
O visível transmutar das noites estivais.

Uma argentina abstração conciliando forma,
Que, súbita, a si mesma denega.

Havia uma insólida irrupção do sólido;
O lago da luz lunar era nem água ou ar.

Wallace Stevens – Reality is an Activity of the Most August Imagination

L.

(excerto) A Canção de Amor de J. Alfred Prufrock – T. S. Eliot

Vamos então, tu e eu,
Quando a noite se espalha contra céu
Como um enfermo entorpecido sobre a mesa;
Vamos então, por certas ruas semi-desertas,
Lamentoso refúgio
De noites insones viradas em hotéis baratos
De pobres cantinas, farelos e cascos.
Ruas que seguem como um tedioso discurso
De insidioso intuito
Que te levam a uma extenuante questão…
Ah, não pergunte qual seja;
Vamos então a fazer tal visita.

Pelo salão as mulheres vem e vão
Falando de Miguel Ângelo.

A neblina amarela que esfrega as costas nas janelas,
A fumaça amarela que esfrega suas ventas nas janelas,
Espicha sua língua nas quinas da noite,
Demora-se sobre as poças que encharcam as sarjetas,
Recolhe em suas costas das chaminés a fuligem,
Desliza-se sobre as telhas, faz um arco súbito,
E tendo em vista ser esta uma noite suave de Outubro,
Curva-se sobre as casas, e pousa em sono.

E, verdade, haverá tempo
Para a fumaça amarela que escorrega na ruela,
Esfregando suas costas nos vitrais das janelas;
Haverá tempo, haverá tempo
Para trajar um rosto para encontrar os rostos que tu conheces;
Haverá tempo para matar e para criar,
E tempo para todas as obras e dias das mãos
Que levantam e abandonam no prato a questão.
Tempo para mim e para ti,
E tempo ainda para centenas de indecisões,
E para centenas de decisões e de revisões,
Antes de se tomar um café com torradas.

Pelo salão as mulheres vem e vão
Falando de Miguel Ângelo.

E, verdade, haverá tempo
Para o assombro, “Ouso eu?” e, “Ouso eu?”
Tempo para dar as costas e descer as escadas,
Com um ponto calvo meio à cabeça
(Hão-de dizer: “Como cresce escasso seus cabelos!”)
Meu casaco de frio, minhas golas presas firmes junto ao queixo
Minha gravata cara e modesta, com um só broche fixo,
(Hão-de dizer: “Mas como são os braços e as pernas estreitos!”) –
Ouso, eu,
Perturbar o Universo?
Em um minuto há tempo suficiente
Para decisões e revisões que outro minuto reverte.

(…)

Tradução: T. S. Eliot – Quarta-Feira de Cinzas (V.)

Embora não espere mais voltar
Embora não espere
Embora não espere voltar

Oscilando entre a perda e o lucro
Neste breve trânsito onde os sonhos se cruzam
O de sonhos cruzados crepúsculo entre a vida e a morte
(Abençoa-me, Pai) ainda que não deseje desejar tal sorte
Da vasta janela de frente à costa granítica
As velas brancas voam rumo-ao-mar, rumo-ao-mar revoam;
As asas invictas

E o perdido coração se enrija e rejubila
Em perdido lilás e perdidas vozes marinhas
E o de frágil espírito se apressa a rebelar
Ante a vara d’ouro arqueada e ao perdido odor do mar
Se apressa a recobrar
O grito da codorna e o rodopio das revoadas;
E o olho então cego recria
Entre as portas ebóreas suas formas vazias
E o renovam os odores e os salsos sabores das terras ariscas.

Este é o tempo da tensão entre a vida e a morte
Este é o lugar de solidão onde os sonhos se cortam
Por entre azuis rochas;
Mas quando do teixo as vozes se agitam e derivam ao longe
Tão logo se agita o outro teixo e sua voz pois responde.

Bendita irmã, santa mãe, espírito das fontes e dos jardins
Não consinta que nos enganemos em falsidade,
Ensina-nos a cuidar e não cuidar
Ensina-nos a insistir,
Mesmo que por entre essas rochas,
A nossa paz em Sua vontade;
E mesmo que por entre essas rochas,
Mãe e irmã
E espírito do rio e dos jardins,
Não consinta que então me aparte.

E que se eleve meu pranto junto a Ti.

T. S. Eliot – Ash Wednesday

L.

Tradução: Wallace Stevens – O Motivo da Metáfora

Te aprazes o outono em baixo às árvores
Pois que tudo está semi-morto.
O vento move, qual manco entre as folhas,
Repetindo vozes sem sentido.

De igual modo foste feliz na primavera
Das meias-cores e quartos-de-coisas,
O céu de pouco mais brilho, a nuvem em degelo,
O pássaro só, a lua obscura –

A lua obscura aclara um mundo obscuro
De coisas que nunca serão tão bem expressas
Onde tu mesmo nunca foste tão bem tu mesmo
Nem quiseste e nem havias de ser,

Desejando a euforia das mudanças:
O motivo da metáfora, contrai-se com
O pesar do primeiro meio-dia,
O A B C do ser,

O humor rubro, o martelar
Do vermelho e azul, o som duro –
Contra a insinuação, o aço – o clarão afiado,
Vital e arrogante, fatal dominante X.

Wallace Stevens – The Motive of Metaphor, em Transport to Summer

 

L.

Provérbios e Cantares: Antonio Machado

XXIX

Caminhante, são teus passos
O caminho, e nada mais;
Caminhante, não há caminho,
O caminho faz-se ao andar.
Ao andar faz-se o caminho,
E ao voltar a vista atrás
Se vê a senda que nunca
Se há de voltar a pisar.
Caminhante, não há caminho,
Mas sim esteiras no mar.

XXXVI

Fé empirista. Nem somos nem seremos.
Pois que todo viver nosso é emprestado
Nada trazemos; Sequer levaremos.

Antonio Machado

L.

Hermes visita o trigésimo andar

Salta o pés-alados
E cai em mergulho
Das nuvens ao alto
No abismo azul celeste;
Traçando seus arcos,
Cruzando as correntes,
Na pressa dos ventos,
Qual pássaro, chega
Hermes ao trigésimo andar.

Assalta as varandas,
Irrompe as janelas,
Investe contra as cortinas
E plana sobre os corredores
E pousa, com o peso da pena,
Em pose de estátua antiga,
Ao centro da sala de estar.

Descalça as suas sandálias,
Despe sua branca túnica,
Revela o torso ambíguo,
E pergunta:
“Como foi o seu dia?”
Sentando à cadeira, oferto-lhe um chá.

Ele não veio dizer
Das revoluções dos planetas
Dos novos modos dos signos
Das querelas dos deuses, ou
De como nascem as estrelas –

Mas pede notícias
Da moça que perde o pingente,
Do homem deitado na praça,
De assaltos a mão armada,
Da velha anedota,
De encontros casuais,

E logo digo
Do ar solitário e frio de Julho,
Do tempo mal gasto,
Das dores do mundo,
Da doce esperança
(Que é pobre, mas há) –
Da terrível erupção de tudo.

[Hermes abre seus braços como quem prepara um novo salto]

E digo:
“Pudesse, Hermes, me levar
Por suas mãos, de onde vens e a onde vais,
Livrando-me desse quarto encastelado
Que em meio à terra e o céu, me faz
De ti e do mundo apartado,
Sem o risco de correr à janela, um dia,
E lançar-me de encontro ao asfalto –
Verdadeira alegria seria.”

Mas volta o pescoço de mármore
E vira-se, como quem não ouve
E vai-se, como quem bem sabe,
Que o selvagem azul celeste
É o limite dos olhos mortais.

L.

coisa rara

“Uma pessoa quer é ver-se livre de alguma coisa que lhe pesa no peito. Não sabemos que coisa nos pesa no peito antes de conseguirmos tirá-la de lá” – T.S. Eliot

se há essência que assim me prende
meu peito pesa, e a ti, desprende
o peso que atormenta a alma,
você entende, é coisa rara
tiremos do peito,
dai-me a mão.

LW.