Felicidade

Meu amigo,
Aristóteles já dizia
Que a suma felicidade consistia
Na mais pura contemplação.

E a quem preza a inação
Da via contemplativa
Mudar dói,
Mudar turva a vista
– A mudar, resista,
Pois mudança é traçar
No perfeito, imperfeição.

A não ser que o perfeito imperfeito fosse.
A não ser que se prezasse errado.
Pois, que se diga nesse caso
– Benvinda, mudança!
– Benvinda, dor, benvinda!
A mudar, persista,
Que mudança também é traçar
O imperfeito à perfeição.

Mas já disso não mais se sabe.
E não sabendo – suma humildade –
Contemplemos, reservados,
O mudar-nos dias e dores,
Em mais pura contemplação –

Felicidade.

L.

Tradução: Wallace Stevens – Chá no Palácio de Hoon

Não menos porque em púrpura atravesso
O dia ocidental pelo que chamastes
‘O ar mais solitário’, não menos eu era eu mesmo.

Que era o unguento espalhado em minha barba?
Que eram os hinos entoados em meus ouvidos?
Que era o mar cuja corrente varria-me lá?

De minha própria mente chovia o unguento dourado.
E meus próprios ouvidos compunham os hinos que ouviam.
Eu mesmo era a bússola desse mar:

Eu era o mundo em que andava, e o que via
Sentia ou ouvia, provinham senão de mim.
E lá me encontrei assim, mais estranho e verdadeiro.

Wallace Stevens, em Harmonium, 1923

L.

Tradução: Wallace Stevens – A Realidade é uma Atividade da Mais Augusta Imaginação

Última sexta, sob o clarão da última sexta-feira à noite,
Dirigíamos de Cornwall a Hartford, tarde.

Não era um sopro de noite em uma vidraria em Viena
Ou Veneza, inerte, colhendo tempo e poeira.

Havia um aperto de força de um moinho a girar,
Baixo à fronte da estrela mais hespéria,

O vigor da glória, um ardor nas veias,
Ao se erguerem e moverem as coisas, dissolvidas.

Na distância, mudança, no nada ou mais,
O visível transmutar das noites estivais.

Uma argentina abstração conciliando forma,
Que, súbita, a si mesma denega.

Havia uma insólida irrupção do sólido;
O lago da luz lunar era nem água ou ar.

Wallace Stevens – Reality is an Activity of the Most August Imagination

L.

(excerto) A Canção de Amor de J. Alfred Prufrock – T. S. Eliot

Vamos então, tu e eu,
Quando a noite se espalha contra céu
Como um enfermo entorpecido sobre a mesa;
Vamos então, por certas ruas semi-desertas,
Lamentoso refúgio
De noites insones viradas em hotéis baratos
De pobres cantinas, farelos e cascos.
Ruas que seguem como um tedioso discurso
De insidioso intuito
Que te levam a uma extenuante questão…
Ah, não pergunte qual seja;
Vamos então a fazer tal visita.

Pelo salão as mulheres vem e vão
Falando de Miguelângelo.

A neblina amarela que esfrega as costas nas janelas,
A fumaça amarela que esfrega as ventas nas janelas,
Espicha sua língua nas quinas da noite,
Demora-se sobre as poças que encharcam as sarjetas,
Recolhe em suas costas das chaminés a fuligem,
Desliza-se sobre as telhas, faz um arco súbito,
E tendo em vista ser esta uma suave noite de Outubro,
Curva-se sobre as casas, e pousa em sono.

E, verdade, haverá tempo
Para a fumaça amarela que escorrega na ruela,
Esfregando suas costas nos vitrais das janelas;
Haverá tempo, haverá tempo
Para trajar um rosto para encontrar os rostos que tu conheces;
Haverá tempo para matar e para criar,
E tempo para todas as obras e dias das mãos
Que levantam e abandonam no prato a questão.
Tempo para mim e para ti,
E tempo ainda para centenas de indecisões,
E para centenas de decisões e de revisões,
Antes de se tomar um café com torradas.

Pelo salão as mulheres vem e vão
Falando de Miguelângelo.

E, verdade, haverá tempo
Para o assombro, “Ouso eu?” e, “Ouso eu?”
Tempo para dar as costas e descer as escadas,
Com um ponto calvo meio à cabeça
(Hão-de dizer: “Como cresce escasso seus cabelos!”)
Meu casaco de frio, minhas golas presas firmes junto ao queixo
Minha gravata cara e modesta, com um só broche fixo,
(Hão-de dizer: “Mas como são os braços e as pernas estreitos!”) –
Ouso, eu,
Perturbar o Universo?
Em um minuto há tempo suficiente
Para decisões e revisões que outro minuto reverte.

(…)

Tradução: T. S. Eliot – Quarta-Feira de Cinzas (V.)

Embora não espere mais voltar
Embora não espere
Embora não espere voltar

Oscilando entre a perda e o lucro
Neste breve trânsito onde os sonhos se cruzam
O de sonhos cruzados crepúsculo entre a vida e a morte
(Abençoa-me, Pai) ainda que não deseje desejar tal sorte
Da vasta janela de frente à costa granítica
As velas brancas voam rumo-ao-mar, rumo-ao-mar revoam;
As asas invictas

E o perdido coração se enrija e rejubila
Em perdido lilás e perdidas vozes marinhas
E o de frágil espírito se apressa a rebelar
Ante a vara d’ouro arqueada e ao perdido odor do mar
Se apressa a recobrar
O grito da codorna e o rodopio das revoadas;
E o olho então cego recria
Entre as portas ebóreas suas formas vazias
E o renovam os odores e os salsos sabores das terras ariscas.

Este é o tempo da tensão entre a vida e a morte
Este é o lugar de solidão onde os sonhos se cortam
Por entre azuis rochas;
Mas quando do teixo as vozes se agitam e derivam ao longe
Tão logo se agita o outro teixo e sua voz pois responde.

Bendita irmã, santa mãe, espírito das fontes e dos jardins
Não consinta que nos enganemos em falsidade,
Ensina-nos a cuidar e não cuidar
Ensina-nos a insistir,
Mesmo que por entre essas rochas,
A nossa paz em Sua vontade;
E mesmo que por entre essas rochas,
Mãe e irmã
E espírito do rio e dos jardins,
Não consinta que então me aparte.

E que se eleve meu pranto junto a Ti.

T. S. Eliot – Ash Wednesday

L.

Tradução: Wallace Stevens – O Motivo da Metáfora

Te aprazes o outono em baixo às árvores
Pois que tudo está semi-morto.
O vento move, qual manco entre as folhas,
Repetindo vozes sem sentido.

De igual modo foste feliz na primavera
Das meias-cores e quartos-de-coisas,
O céu de pouco mais brilho, a nuvem em degelo,
O pássaro só, a lua obscura –

A lua obscura aclara um mundo obscuro
De coisas que nunca serão tão bem expressas
Onde tu mesmo nunca foste tão bem tu mesmo
Nem quiseste e nem havias de ser,

Desejando a euforia das mudanças:
O motivo da metáfora, contrai-se com
O pesar do primeiro meio-dia,
O A B C do ser,

O humor rubro, o martelar
Do vermelho e azul, o som duro –
Contra a insinuação, o aço – o clarão afiado,
Vital e arrogante, fatal dominante X.

Wallace Stevens – The Motive of Metaphor, em Transport to Summer

 

L.

Provérbios e Cantares: Antonio Machado

XXIX

Caminhante, são teus passos
O caminho, e nada mais;
Caminhante, não há caminho,
O caminho faz-se ao andar.
Ao andar faz-se o caminho,
E ao voltar a vista atrás
Se vê a senda que nunca
Se há de voltar a pisar.
Caminhante, não há caminho,
Mas sim esteiras no mar.

XXXVI

Fé empirista. Nem somos nem seremos.
Pois que todo viver nosso é emprestado
Nada trazemos; Sequer levaremos.

Antonio Machado

L.

Hermes visita o trigésimo andar

Salta o pés-alados
E cai em mergulho
Das nuvens ao alto
No abismo azul celeste;
Traçando seus arcos,
Cruzando as correntes,
Na pressa dos ventos,
Qual pássaro, chega
Hermes ao trigésimo andar.

Assalta as varandas,
Irrompe as janelas,
Investe contra as cortinas
E plana sobre os corredores
E pousa, com o peso da pena,
Em pose de estátua antiga,
Ao centro da sala de estar.

Descalça as suas sandálias,
Despe sua branca túnica,
Revela o torso ambíguo,
E pergunta:
“Como foi o seu dia?”
Sentando à cadeira, oferto-lhe um chá.

Não veio dizer
Das revoluções dos planetas
Dos novos modos dos signos
Das querelas dos deuses, ou
De como nascem as estrelas –

Mas pede notícias
Da moça que perde o pingente,
Do homem deitado na praça,
Do assalto a mão armada,
Da velha anedota,
De encontros casuais,

E logo digo
Do ar solitário e frio de Julho,
Do tempo mal gasto,
Das dores do mundo,
Da doce esperança
(Que é pobre, mas há) –
Da terrível erupção de tudo.

[Hermes abre seus braços como quem prepara um novo salto]

E digo:
“Pudesse, Hermes, me levar
Por suas mãos, de onde vens e a onde vais,
Livrando-me desse quarto encastelado
Que em meio à terra e o céu, me faz
De ti e do mundo apartado,
Sem o risco de correr à janela, um dia,
E lançar-me de encontro ao asfalto –
Verdadeira alegria seria.”

Mas volta o pescoço de mármore
E vira-se, como quem não ouve
E vai-se, como quem bem sabe,
Que o selvagem azul celeste
É o limite dos olhos mortais.

L.

coisa rara

“Uma pessoa quer é ver-se livre de alguma coisa que lhe pesa no peito. Não sabemos que coisa nos pesa no peito antes de conseguirmos tirá-la de lá” – T.S. Eliot

se há essência que assim me prende
meu peito pesa, e a ti, desprende
o peso que atormenta a alma,
você entende, é coisa rara
tiremos do peito,
dai-me a mão.

LW.

passeio por uma igreja de Ouro Preto

em sólida base de pedra
se elevam na verde colina
suas quatro colunas grandiosas

por entre as quais as janelas,
que altas, de vergas e ombreiras
de rocha lavradas a escoda,

permitem a entrada de luz,
mas não os olhares curiosos
do moço e da noiva fotógrafa,

do cão e da mulher de chapéu,
que rondam por entre os jardins
extensos dos flancos ao fundo

aonde se escondem os túmulos
inscritos com os nomes dos crentes
que em ouro pagaram o edifício,

mas não o da gente que a fez –
as mãos negras, que fortes
ergueram as campanas, que velam

os sinos ao alto, que chamam –
(Qual Elias! Voz no deserto) –
dos morros o povo infiel.

E ao topo desponta-se a Cruz,
ainda distante do céu…

L.